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quinta-feira, 26 de março de 2015

Como é trabalhar de psicóloga na área social - pt 2

Trabalhei um ano e meio na diretoria básica, em CRAS, e há alguns meses fui transferida pra diretoria da alta complexidade, para as casas de passagem e serviços de acolhimentos (se você não tá entendendo nada, leia esse post).

Fiquei como técnica responsável pelas casas de adultos; No município que eu trabalho temos quatro casas, duas pra crianças, e duas pra adultos. Sendo nas categorias casa de passagem e serviço de acolhimento. Nas casas de passagem os atendidos podem ficar até três meses, para de organizarem e encontrarem um lugar para ficar, retornar ao convívio familiar ou ser transferido para outro serviço. Nos serviços de acolhimento de longo prazo pode-se ficar por até três anos, são geralmente casos mais crônicos que necessitam de mais tempo para se organizar.

Fico duas vezes por semana numa casa e três vezes em outra. Na casa de passagem normalmente o público são moradores de rua que necessitam de um endereço físico para dar continuidade a algum tratamento de saúde, pessoas que tiveram problemas em sua moradia (enchentes, incêndios) e necessitam de um tempo para que possam retornar.  O serviço é voltado para indivíduos com vínculo familiar rompido ou sem nenhum vínculo familiar, migrantes, pessoas sem condição de auto-sustento.

Todas as casas possuem assistente social. No geral nossos serviços se cruzam e se misturam, ficando diferenciado o olhar para cada caso. Minha rotina é prover acolhimento, atendimento e aconselhamento psicológico, no sentido de dar um suporte pra essa fase da vida que estão passando, não tenho um foco clínico, se necessário encaminho para os serviços da saúde.

A maioria dos acolhidos tem problema mental ou toma remédio controlado. Alguns tem discurso confuso, e a maioria está bastante acostumada a esperar que façam as coisas para eles; bastante assistencialismo, bem arraigado. Tento trabalhar no sentido de fortalecer a independência e mostrar a sua responsabilidade para com sua própria vida. A casa provê as necessidades básicas, enquanto isso tentamos dar um empurrão pra pessoa melhorar de vida. Há muitos casos reincidentes, muitos casos que estão sendo empurrados com a barriga por anos. Os profissionais são constantemente trocados a bel prazer da diretoria, e diversos funcionários já desistiram de começar um trabalho com os atendidos (ou nunca quiseram começar, já se acomodaram com o fato de ter emprego garantido pro resto da vida).

Alguns atendimentos são frustrantes, algumas pessoas simplesmente desistiram de tentar e jogaram as vidas nas mãos de outras pessoas, como se não fossem nada, como se nada valesse a pena. Não demonstram sinais de depressão, não demonstram sinais de nada. Simplesmente pra eles não faz diferença se vão se dar bem ou mal. Perspectiva zerada. Ambição inexistente.

terça-feira, 24 de março de 2015

Como é trabalhar como Psicóloga na área social


Deixa eu começar explicando que quando você faz psicologia, assim como todas profissões, você tem áreas a seguir. São muitas mesmo: Clínica, saúde mental, hospitalar, neurociências, organizacional, social, publicidade, esporte... E por aí vai. Bom, logo depois de formada eu trabalhei fora da área e depois passei em concurso público, assim não escolhi a área, somente fui encaminhada para a secretaria de assistência social; Essa sendo dividida em três diretorias, a baixa, média e alta complexidade, fazendo uma comparação direta com a saúde, baixa complexidade seriam as UBSs (Unidade básica de saúde); Média, os AMEs (Ambulatório médico de especialidades) e Alta complexidade os hospitais. Na área social seriam, respectivamente os CRAS, CREAS e Serviços de acolhimento. Na saúde nos tratamos a saúde (dã) e na área social, nós trabalhamos as vulnerabilidades sociais.

O que seriam vulnerabilidades sociais? São riscos sociais, geralmente associadas a pobreza, mas nem sempre. Pessoas em vulnerabilidade social são aquelas que são expostas a exclusão social, pessoas pobres ou próximas a linha da pobreza, vítimas de violência doméstica, pessoas em condições precárias de moradia, sem condições de auto-sustento; abandonadas e/ou expulsas dos espaços de convívio da sociedade.

Nos CRAS (Centro de referência de assistência social) se trabalha a prevenção a vulnerabilidade social; Com as famílias expostas a situação de risco social, mas que ainda não sofreram nenhuma violação de direitos humanos; Geralmente é onde se busca informações para benefícios eventuais, cadastros para bolsa famílias e outros programas do governo para evitar que essas famílias/indivíduos cheguem a se tornar marginalizados pela sociedade.

Nos CREAS (Centro de referência especializado de assistência social) se tratam assuntos específicos nos casos em que já foi sofrida alguma violação de direitos. Crianças/mulheres/idosos vítimas de violência e moradores de rua são os principais públicos.

Nos serviços de acolhimentos são atendidos indivíduos que já tiveram vários direitos violados, não tendo mais nenhum vínculo familiar ou social para onde possam retornar, tendo que ser assim acolhidos por um equipamento do município para que sejam trabalhados para adquirir autonomia para retornar ao convívio social/mercado de trabalho.

Quando entrei na prefeitura, comecei pela baixa complexidade, trabalhei num CRAS. O serviço em si era bem precário, basicamente ficávamos preenchendo cadastros de bolsa família a maior parte do dia. Mas mesmo nessa situação, comecei a entrar em contato com diversas situações que estavam completamente fora da minha visão.Já comecei a rever vários conceitos internos. Comecei a ampliar muito a minha visão das coisas, tanto que algumas preocupações parecem simplesmente insignificantes agora, depois de ver famílias inteiras morando em casas menores que meu quarto.

É tanta, mas tanta gente, que a gente começa a entender as estatísticas. Coisas que no meu mundinho é normal, eles nem pensam em ter, nem sabem que existe, é coisa de novela. Sério mesmo, tem gente que nunca viu "queijo embalado um a um".

O trabalho do psicólogo acaba sendo muito diferente do que vemos na faculdade, que tem um viés clínico, de elite. Na área social nos temos que lidar com o básico, confiança, segurança, auto estima, autonomia. Entender o contexto de pessoas que não tem a mínima noção que fazem parte do mesmo mundo que o meu. Que não sabem que também tem o direito de ter um trabalho digno, de reclamar por serviços melhores, e ter estudo de qualidade e quem sabe fazer uma faculdade e ser um "doutor".

Na área social a gente tem que estar muito mais por dentro de leis e políticas, de estatutos, de direitos. E trabalhar lado a lado com assistentes sociais, de trabalhar assuntos complexos lado a lado com necessidades básicas. Mostrar pra pessoa que ela pode ser mais, contudo, respeitando os limites do outro. Que pode sim querer as mesmas coisas que a gente, mas sem se apropriar delas, e sim conviver como igual. É difícil, é mesmo. Ainda por cima colocar de lado conceitos preconcebidos que ouvimos desde que somos pequenos.

A área social continua não sendo uma das minhas preferidas, ainda vou migrar pra saúde algum dia. Mas que ela me fez crescer como profissional e como pessoa, isso é inegável.

Senti aqui que é um assunto pra continuar... :)

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Dona Katrina - Como Ganhar o dia

Katrina* me chamou no cantinho da sala, como quem queria contar um segredo, abaixadinha acenou com as mãos fazendo "vem cá" com os lábios, sem soltar nenhum som. Era uma senhorinha atarraca, com um rosto bastante proporcional, quase quadrado, com aparência saudável apesar das muitas marcas de expressão, sua idade é desconhecida, pois não possui documentos, mas aparenta ter mais de 70 anos, em estado demencial, mistura situações do passado com o presente.
Cheguei perto dela, e com deu sotaque espanhol disse:
- Eu tomo banho todos os dias, sou muito limpa e cheirosa, pois minhas colegas enfermeiras podem me visitar a qualquer momento! - E levantou os braços, mostrando as axilas limpas.
- Que bom, Dona Katrina! - Respondi, então ela franziu o rosto e me olhou séria.
- Preciso te contar uma coisa... Eu não gosto de você!
- Por que Dona Katrina, o que eu fiz? - respondi, bastante surpresa, pois ela falava sorridente, e eu não esperava que fosse me criticar naquele momento.
- É que eu lhe adoro! - Disse ela com um sorriso carinhoso no rosto - E vou falar outra coisa, você é a mais bonita daqui! Mas não conta pra ninguém. - Completou a frase, com uma voz baixinha quase que num sussurro.


*Nome fictício